Logan se passa no ano de 2029, onde logo somos apresentados a um Wolverine velho e deprimido. Nesse futuro, os mutantes não nascem mais e estão praticamente extintos. Logan trabalha como motorista juntando dinheiro para cuidar de um senil e frágil Professor Xavier, tudo o que restou dos X-Men.

O primeiro trailer de Logan tinha a canção Hurt, interpretada por Johnny Cash – uma música sobre isolamento emocional, dor e depressão. O trailer se provou verdadeiro quanto à proposta do filme. Logan está definhando, física e emocionalmente. Seu fator de cura não funciona direito e seu estado físico é um retrato de seu calvário. Ele se afoga em bebida na vã tentativa de não estar sempre se lembrando de toda a dor que já sofreu e que causou. É um homem que não sabia quem era e seu lugar no passado e que teve todas as conexões que fez com outros seres humanos brutalmente arrancadas de si. Todos esses anos de abuso emocional tiveram um preço.

Hugh Jackman sempre interpretou bem o personagem, mas aqui é obrigado a explorar nuances do Logan que são novas na tela do cinema. Seu rosto está sempre carregado, sofrido, cheio de dor interna. Jackman se despede do personagem com uma atuação sublime. A direção ajuda muito aqui na criação desse Logan. Ele manca, uma de suas garras não funciona direito, ele tem o corpo cheio de cicatrizes e tem dificuldades para derrotar um grupo de ladrõezinhos de quinta que ele derrotaria com uma mão nas costas no passado.

Patrick Stewart também se despede do Professor Xavier nesse filme, e entrega uma interpretação fantástica de um professor debilitado mentalmente, que precisa se drogar para que não tenha ataques e acabe matando pessoas. Mais um personagem quebrado que viu tudo o que sonhou escorrer pelos dedos, aqui o professor perde aquele ar messiânico, altivo e vemos um lado dele inédito. A relação dele com Logan é parental. Temos aqui um filho cuidando do pai idoso e fragilizado. Aliás, Stewart perdeu quase 10 quilos para esse filme, o que ajuda no visual raquítico do personagem.

O filme mostra, em determinado momento, cenas do filme Os Brutos Também Amam, e a referência não poderia ser melhor. O protagonista do western é alguém que procura se isolar, se distanciar de toda a sua vida passada, repleta de violência e matança, mas se apega a uma família que é ameaçada e aí precisa reviver seu passado, do qual não consegue escapar. É uma metáfora perfeita para Logan. Ele só quer viver isolado com sua figura paterna e protegê-lo, mas com a introdução de Laura, personagem de Dafne Keen na história, se sente dividido. Logan resiste à ideia de ajudar a menina porque não quer correr o risco de se conectar emocionalmente com ninguém, é uma defesa que ele levantou depois de inúmeras perdas e traumas. Foram tantas, que ele se culpa por elas.  Ao mesmo tempo, seu lado herói existe e ele sabe que há algo errado e que ele não consegue ignorar isso e não fazer algo a respeito. É ao mostrar esse conflito que o filme revela seu bom roteiro e Hugh Jackman brilha. Vai ser difícil acostumar com outro ator no papel do carcaju.

Aliás, Dafne Keen. Que achado! Ela consegue ter momentos inocentes de criança enquanto mantém um olhar feroz; qualidades essenciais para sua personagem. Misture isso a ótima direção das cenas de luta, e temos uma Laura convincente, uma personagem vital na narrativa do filme.

Ainda sobre as cenas de luta, o diretor James Mangold soube muito bem deixar a ação correr sem cortes rápidos ou closes desnecessários. As lutas são claras e fáceis de acompanhar, ao contrário de outros filmes como Transformers, onde não dá para entender nada; ou Assassin’s Creed, que tinha boas cenas de ação escondidas em cortes absurdamente rápidos.

A FOX não teve medo de prometer violência e palavrões sem o freio da classificação indicativa, e logo na cena inicial já dá uma amostra do que está por vir nesses quesitos. Sangue e membros decepados permeiam a película e o melhor, não é de graça. Soltar palavrões em determinadas situações soa natural para quase todo ser humano e isso ajuda na imersão do filme. Ver a violência real de uma luta com garras metálicas afiadas também ajuda nesse mergulho, pois deixa as consequências mais reais e ilustra o passado violento de Logan, que cobra seu preço na mente dele no futuro.

Apesar de ser um filme sobre o Wolverine, é muito diferente dos outros filmes de super-herói. Embora haja ação e lutas, é uma jornada de personagens desesperançosos, com pesos gigantescos sobre suas costas e carregados de dor e culpa. O fator de cura de Logan não pode curar feridas emocionais.

Apesar disso, o filme não é perfeito. Há uma muleta narrativa bastante amadora num vídeo de celular totalmente implausível, alguns elementos que despencam do nada e, os vilões usados, os Carniceiros, são apenas peões descartáveis para Wolverine fatiar. Uma pena, considerando todo o trabalho e importância que os personagens tiveram nas histórias em quadrinhos do carcaju. Dito isso, um deles está ótimo no filme, o carniceiro líder Donald Pierce. O ator Boyd Holbrook não se intimida pela presença de Jackman e faz frente a Logan sem hesitar.

Um faroeste de super-herói, Logan é um filme íntimo que acerta muito ao investir no relacionamento entre seus três personagens principais. O final, mesmo previsível, é marcante e emociona e a cena final é de arrepiar. É um filme triste, violento, e uma baita análise de personagem. Hugh Jackman se despede do papel que foi seu por 17 anos com garras de ouro.

Se quiserem ver minha resenha em vídeo, ele está logo abaixo. Aproveite para se inscrever no canal:

E não deixem de conferir minha participação no podcast Depois de Duas falando sobre Logan:

http://www.depoisdeduas.com.br/2017/03/08/dd2-ep-22-logan/

Anúncios