Harry Potter e a Criança Amaldiçoada é o roteiro da peça de teatro escrita por Jack Thorne, baseado numa história criada por Thorne, John Tiffany e pela J.K. Rowling, que mais estava no projeto só para autorizar o que podia e o que não podia estar na narrativa final.

A história começa exatamente no prólogo de As Relíquias da Morte, mas rapidamente pula mais para a frente, onde logo podemos notar que ela se foca nos filhos de Harry, Alvo; e de Draco, Escórpio. E já digo aqui que são novos personagens excelentes para o universo de Harry Potter, eles têm uma dinâmica muito boa e interessante e eu adoraria ler mais aventuras deles.

Além da relação entre os dois, cada um tem que viver com o “fardo” de serem filhos de quem são, um filho do famoso herói Harry Potter e o outro, filho de Draco, um seguidor do inimigo supremo, Voldemort. Essas informações são de conhecimento de todos e eles têm que conviver com o que é esperado deles, algo bem massacrante para qualquer individualidade. O fato de que os meninos são adolescentes, se descobrindo como pessoas, aprendendo seus gostos, desejos e valores, esperando e entendendo suas emoções e querendo agir como, bem… eles mesmos, entra em rota direta de conflito com o que é esperado deles. Um paralelo interessante com o próprio Harry na mesma idade, quando também havia imensas expectativas em cima do “Menino Que Sobreviveu”, expectativas essas que o Harry nunca pediu, mas com as quais teve que conviver. Assim como Harry não queria ser rotulado como a alcunha que recebeu, Alvo também não quer ser rotulado como o “Filho de Harry Potter”.

As interações entre os dois pais e os dois filhos são ricas e, felizmente, complexas; nada é preto e branco, simples ou objetivo. São relações complicadas, interessantes e com conflitos reais. Temos Harry tentando ser pai sem ter sido criado por um para ter como exemplo e Alvo tentando estabelecer seu lugar na vida e os embates oriundos dessas duas situações. No caso de Harry, para quem acompanhou toda a sua história nos sete livros anteriores, são momentos bem tocantes. Todo o seu passado difícil enquanto crescia (órfão, criado de maneira desalmada pelos Dursleys, a perda de Sirius e Dumbledore – as figuras paternas que teve por pouco tempo, a pressão de viver com a fama indesejada e as constantes ameaças de perder todos que ama, etc…) moldou Harry como adulto e foi um golpe forte em seu psicológico. Tudo bem ilustrado na relação dele com Alvo.

Para tratar de tudo isso, o artifício usado foi… viagem no tempo, uma coisa meio efeito borboleta e De Volta para o Futuro, sem entrar em mais detalhes. Isso pode ser uma baita armadilha, pois o escritor pode cair no vício de ficar repetindo o que já é consagrado ao invés de construir algo totalmente novo e sendo A Criança Amaldiçoada uma nova história… não seria melhor algo novo? A própria Rowling já falou que não deve mais criar histórias para o Harry. Então, essa sendo a última aventura dele, não teria sido melhor ter criado algo novo para ele enfrentar? Fica parecendo desculpa para fan service gratuito.

Porém, já que era para usar viagem no tempo, acho que foi bem usado. Embora o parágrafo de cima ainda se mantenha, o elemento de viagem no tempo é bem usado para aprofundar personagens, para que eles se aventurem em lugares de sua alma ainda não explorados ou que enfrentem cantos obscuros de suas mentes e de suas memórias e saiam pessoas mais fortes e melhores. Aliás, há um momento em que a viagem no tempo é usada para homenagear um personagem muito querido pelos fãs, parece fan service sim, mas achei bem usado e resultou numa cena bem emocionante.

O ritmo é bastante intenso, não tem pausa para quase nada e isso é reflexo de outra coisa que precisa ser levada em consideração: É um ROTEIRO de uma peça, não um LIVRO. Então é necessário abstrair a falta de descrição de cenários, por exemplo, que só seria vista ao vivo no teatro. Há cenas em que a indicação de emoção do personagem é muito sutil, porque depende do diretor e do ator de passar essa emoção de maneira real, o texto do roteiro não precisou investir nisso. A história mal tem momentos para respirar e isso pode dar a sensação de que os personagens são mal desenvolvidos – alguns são mesmo, parece que apenas estão lá, sem função vital na história.

Mas a história se perde muito na premissa da tal criança amaldiçoada. A origem dela não faz o MENOR sentido; nem prático, porque não tem onde encaixar a origem dela no cânone, já que teria acontecido durante eventos que presenciamos nos livros e alguém lá teria que estar grávida, e nem pelos personagens envolvidos, pois eles se envolverem na situação que a história coloca é ir contra toda a construção original deles, é uma quebra grande de personagens consagrados. Não faz sentido, não encaixa e não sei como a Rowling autorizou.

Apesar das partes ruins, Harry Potter e a Criança Amaldiçoada é leitura obrigatória para quem é fã da série. Há defeitos, sim; alguns bem feios, mas há coisas muito bem desenvolvidas em personagens queridos e a introdução de Alvo e Escórpio abre uma gama de possibilidades para promissoras histórias futuras.

Fui convidado para participar do podcast Depois de Duas para falar sobre o universo Harry Potter em geral, não deixe de conferir clicando AQUI.

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